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Empregam mais de 15 mil pessoas e enfrentam aumentos que chegam a 800 por cento em um contexto de queda das vendas e encarecimento do crédito. O ministro Aranguren não dá respostas.

Por Javier Lewkowicz

As empresas recuperadas na Argentina empregam mais de 15 mil pessoas, se defrontam com aumentos de impostos que chegam a 800 por cento, o que põe em dúvida sua continuidade. Página/12 teve acesso a dados atualizados do setor e apresenta casos concretos de cooperativas que sofrem o tarifaço em um contexto de quedas de vendas, encarecimento do crédito e de outros insumos e aumento das importações. Muitas apresentaram recursos judiciais para frear o tarifaço e solicitam o reconhecimento da tarifa social, entretanto, o governo se nega. Até agora, o gesto do macrismo assim que praticamente foi tomada a Secretaria de energia pelo movimento de recuperadas foi permitir que as empresas anotadas em um registro nacional paguem 50% da conta enquanto a pasta de Juan José Aranguren levará 90 dias para avaliar a situação.
Segundo o Centro de Documentação de Empresas Recuperadas, que funciona dentro do Programa Faculdade Aberta, em Filosofia e Letras da UBA, há 362 empresas recuperadas no país que dão ocupação a 15. 321 trabalhadores. O último informe está atualizado até o mês passado, contudo, não foi publicado.
O anterior registrava dados até dezembro de 2013, desde então foram recuperadas um total de 41 empresas autogeridas por trabalhadores. Do total de empresas e de trabalhadores pouco mais da metade se localiza na Grande Buenos Aires (114) e na Cidade de Buenos Aires (71).
A maioria das empresas se dedica ao ramo metalúrgico (70), seguido por alimentação (49); gráficas (38), têxteis (28), gastronomia (25), indústria de carne (25) e construção (18), seguidas por saúde, madeira/serraria, educação, químicas, meios de comunicação, transporte, indústria do coro, vidro, comércio, combustível, hotelaria, entre outros.
"Nestes meses do governo de Maurício Macri os impactos mais evidentes sobre o setor estão relacionados com o aumento generalizado dos insumos e o descenso abrupto do consumo, a abertura das importações, a desvalorização que encareceu insumos importados e baixou os nacionais e principalmente, os enormes aumentos tarifários, especialmente em eletricidade e gás", explicou a Página/12 Andrés Ruggeri, diretor do programa Faculdade Aberta, do qual depende o Centro de Documentação. O especialista agrega que "o maior impacto, que provocou a reação dos trabalhadores, é o aumento tarifário".
Vários exemplos salientados pelo informe reforçam esta descrição. Na Cidade de Buenos Aires, a Empresa Recuperada gráfica Chilavert sofreu um aumento da tarifa elétrica de 3 mil para 15 mil pesos entre uma fatura e outra, um aumento de 400 por cento, enquanto o restaurante Alé Alé, de 7500 a 22 mil pesos (193 por cento). A tarifa para o Hotel Bauen subiu de 24 mil para 100 mil pesos (317 por cento) e a pizzaria La Casona de 8 mil para 42 mil pesos (425%).
Na província de Buenos Aires, a metalúrgica 19 de dezembro passou de 6 mil para 24 mil pesos (300%), a gráfica Madygraf de Pilar, de 38 mil para 230 mil pesos (500%); o frigorífico Subpga, de 100 mil para 850 mil pesos (750%) e em Neuquén a fábrica de cerâmicas Fasinpat passou de 360 mil pesos para 1.600.000 pesos em gastos com eletricidade.
Em Tandil, a metalúrgica Ronicevi, que conta com 42 associados que recuperaram a empresa há 4 anos, a fatura de luz subiu de 32.565 pesos em dezembro para 62. 166 pesos em abril.
Outro caso é da gráfica Idelgraff, localizada em Munro, recuperada em 2008 e conformada como cooperativa em 2009. Os 12 operários gráficos mantiveram aberta a tipografia, mas o aumento da tarifa pôs em xeque as contas: A boleta de Edenor passou de 1998 pesos em 15 de janeiro para 3061 em 16 de fevereiro e logo para 8794 pesos em 15 de abril (ver imagem), em um contexto de forte queda de vendas.
Gisela Bustos é advogada de empresas recuperadas e apresentou tutela coletiva de seis empresas de San Martin e sete da Cidade de Buenos Aires. "Também fizemos representações no Ministério da Energia e estamos fazendo circular uma petição. A situação é gravíssima. Em alguns casos temos aumentos de 900 por cento. Enquanto a justiça se demora, as empresas podem chegar a fechar. A solução de fundo é que as empresas recuperadas tenham acesso a uma tarifa social. É o que corresponde. Trata-se de entidades sem fins lucrativos, que ademais cumprem funções como ser bibliotecas e bacharelados populares. A tarifa social exige que a pessoa não tenha ingressos superiores a 12 mil pesos, e essa é exatamente nossa situação, porque nenhum trabalhador retira mensalmente, nem aproximadamente, esta cifra. O que corresponde é a tarifa social, porém o governo nos coloca senões e impedimentos", explicou Bustos a Página/12.
"Para o setor de empresas recuperadas, a contração do mercado junto ao aumento de tarifas e uma notável mudança da relação com o Estado resultou em um forte "gargalo de garrafa" que impede o crescimento e complica seu lugar dentro do mercado como opção ao capitalismo e ao setor produtivo cartelizado", indicou a este diário, Santiago Luis Hernánde, vice-presidente do Instituto de Promoção da Economia Solidária (IPES) da província de Buenos Aires.
A situação é muito comprometida tanto para as recuperadas de tamanho mediano que já estão estabilizadas no mercado como para as microempresas e pequenas empresas. Umas das empresas mais importantes do setor, a fábrica de tratores Pauny, localizada em Las Varillas, Córdoba, teve um aumento da fatura de luz de 820 mil pesos para 1.800.000 pesos, com uma incidência no preço final de 9 por cento. "Ademais pela desvalorização subiu o ferro e a chapa não podemos repassar isso aos preços porque ficaríamos fora do mercado. O resultado é que perdemos rentabilidade e não podemos investir, porque o canal de crédito, com as taxas atuais, está vedado" indicaram desde a empresa, que tem 650 trabalhadores.
Antonia faz parte da Cooperativa 10 de Novembro, localizada em Lomas Del Mirador, La Matanza. É uma fiação recuperada pelos seus trabalhadores em 2007, quando a empresa, apesar de ter muito trabalho, fechou por um problema entre os sócios. "Trabalhamos sob encomenda, o cliente põe a matéria prima e nós a mão de obra. Pagávamos7500 pesos de luz, em março nos veio 15 mil, depois 35 mil, 37 mil e a última foi de 45 mil pesos, com o mesmo consumo, inclusive um pouco menos. Vínhamos bem, no último período pegamos dois jovens, mas isto nos matou, não podemos incorporar ninguém porque tudo faz aumentar a luz. Somos 18 famílias e se continuarmos assim vamos ter que deixa gente de fora". Antonia e as demais associadas vinham retirando 1600 pesos por semana, mas a partir do tarifaço baixaram seus ingressos a 1400 pesos por semana, apesar da inflação.
Cueroflex é composta por 80 trabalhadores que trabalham com coro reciclado. As vendas aos sapateiros e fabricantes de cintos reduziram-se entre 30 e 40 por cento. Neste contexto, tiveram um aumento da tarifa de energia elétrica de 59.452 pesos em 4 de fevereiro para 321. 757 em 5 de maio, cerca de 441 por cento (ver imagem). "Se nós pudéssemos repassar os custos aos preços a situação seria manejável. Porém, não há como fazer isso neste contexto de queda das vendas. Houve queda do trabalho e automaticamente nos baixa os salário. Se isto segue assim terminamos todos na rua. Pagamos a luz entre todos e não podemos pagar mais uma prata para as pessoas", contou Jorge a este diário. A fábrica está localizada em San Martín e foi recuperada por seus trabalhadores há quatro anos.
A têxtil recuperada Acetato Argentino, que emprega a 80 pessoas em Quilmes, enfrenta uma queda das vendas de 60%, causada pela depressão do mercado interno e pela abertura de importações, que levaram as marcas a deixar de comprar-lhe. Em consequência, seu consumo elétrico baixou de 117.840 kw em abril de 2015 a somente 46.560 kw em abril deste ano. Porém, a fatura elétrica de Edesur aumentou de 36. 619 a 110. 522 pesos.
"As tarifas são parte de um problema maior. Há queda da atividade, alta da taxa de interesse, aumento de preço de matéria prima e serviços. O panorama é muito mais complexo", explicou a Página/12 José Abelli, representante do movimento de empresas recuperadas, atual integrante de Autogestão, Cooperativismo, Trabalho (Actra). Mencionou o exemplo da recuperada Cristalería Vitrofin, que tem 90 trabalhadores e está localizada em Cañada de Gómez, província de Santa Fe. Seu principal insumo é o gás, que incide em 38 por cento de seus custos, porque utilizam fornos a altíssima temperatura. A produção da empresa caiu mais de 35 por cento, enquanto a boleta de gás aumentou de 70 mil para 280 mil pesos. "A perspectiva é o fechamento. Não se pode transferir de maneira nenhuma aos preços este aumento de custos. Ademais está entrando cristal da Checoslováquia e da Rússia a preço de dumping", detalhou Abelli. Também mencionou o caso da fábrica de massas frescas e coberturas de pastel Mil Hojas, que emprega 90 trabalhadores. "O quilo de farinha subiu de 2,20 a 3,90 pesos, a produção caiu uns 35 por cento e a fatura de luz subiu de 2,20 para 3,90 pesos, a produção caiu uns 35 por cento e a fatura de luz subiu de 50 mil a 150 mil pesos". Abelli citou ademais a situação de Pauny e da empresa recuperada La cabana uma fábrica de manteiga e creme com 46 trabalhadores em Rosário, cujo aluguel subiu de 90 mil para 170 mil pesos e a fatura de luz, de 40 mil para 120 mil pesos. "São empresas que não recebem nenhum tipo de subsídio estatal e que estão totalmente em poder de seus trabalhadores", agregou Abelli.
Também está o caso da Cooperativa Textelis Pigué, fábrica recuperada pelos trabalhadores da ex Gatic, que passou de pagar 29 mil pesos por mês a Camuzzi Gas Pampeana para 202 mil pesos, um aumento de 600 por cento. Possuem 150 associados diretos e também empregos indiretos vinculados. "Eu não sei se isto é o que vale o gás ou não. A questão é que de um mês ao outro o aumento foi muito abrupto em um contexto econômico ruim, porque estamos produzindo entre 25 e 30 por cento menos de tecido que em dezembro, porque esfriou totalmente a demanda", explicou a este diário Marcos Santicchia, presidente da cooperativa.
A cooperativa El Palmar, localizada em Laferrere, foi recuperada em 2001 e fabrica tijolos ocos para a construção. "Em fevereiro começamos a notar uma queda das vendas de 30 por cento junto a forte subida de custos porque nós usamos muito diesel, líquidos hidráulicos e azeites. Neste contexto, o tarifaço nos colocou em uma situação quase insustentável. Pagávamos 40 mil pesos por mês, logo veio 350 mil e depois 370 mil pesos. A situação é desesperadora porque isso implicou imediatamente uma forte queda do ingresso dos associados", explicou o associado Alberto Fernández a este diário.
A Fundidora La Matanza, empresa recuperada em 2002 que conta com 70 associados, aumentou seu gasto de luz de uns 25 mil a 80 mi pesos, enquanto o gás aumentou de 30 mil para 130 mil pesos.
"Como fazemos para aguentar? Se há trabalho se pode pagar, mas se não há trabalho é impossível", disse um integrante da cooperativa a este diário.
Outro caso que teve difusão o do frigorífico Bragado, recuperado em 2006. "Na eletricidade pagávamos entre 28 e 30 mil pesos mensais e agora está vindo 70 mil. De água pagávamos entre 28 e 30 mil pesos mensais e agora está vindo 70 mil. De água pagávamos entre 18 e 19 mil mensais e se vai chegar a 50 mil pesos. Está ficando impossível para nós", explicou Carlos Alietti, presidente da Cooperativa.

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