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No texto sobre os atentados de Paris publicado anteriormente aqui no site das fábricas ocupadas procuramos demonstrar a responsabilidade das potências imperialistas ocidentais pelo surgimento e crescimento dos grupos fundamentalistas islâmicos. Tais grupos são fomentados e instrumentalizados para a divisão e fragmentação de países que imponham barreiras aos interesses econômicos das potencias imperialistas ocidentais. Argumentamos que o terror islâmico surge do terror ocidental. No presente texto pretendemos complementar a reflexão sobre o significado e as consequências dos atentados de Paris, tratando especificamente da resposta do governo socialista de Hollande através da decretação do “estado de urgência”. As consequências dessa decisão como uma tentativa de “suspensão da luta de classes” e de ataque, a princípio indireto, mas que tende a se tornar um ataque direto à classe trabalhadora francesa, através da repressão às lutas de resistência frente às políticas de ajuste e aos ataques aos direitos dos trabalhadores. Quando falamos da classe trabalhadora francesa consideramos necessariamente a sua parcela mais sofrida e estigmatizada, composta pelos trabalhadores franco – magrebinos. Após os atentados o governo de Hollande respondeu com um ataque aéreo a cidade de Raqqa na Síria, que causou a morte de inúmeros civis e crianças, pois além de tudo, algumas bombas atingiram uma escola. Dessa forma, reafirmou sua firme disposição intervencionista nas guerras de reordenamento político no Oriente Médio. No plano interno decretou o “estado de urgência”, um estado de exceção com a suspensão das garantias individuais, prisão domiciliar de suspeitos, cerceamento ao direito de reunião entre outras medidas. O parlamento francês a pedido do governo de Hollande resolveu endurecer o estado de urgência com a sua prorrogação para três meses. A França já dispõe de leis antiterroristas que segundo especialistas franceses são suficientes para garantir uma prevenção eficaz. Consideram que um fator para o insucesso da prevenção se deve a carências de recursos físicos e materiais em decorrência do contingenciamento de verbas. Tendo em consideração estas avaliações, o estado de urgência com a suspensão de direitos políticos e civis, que afeta toda a população, mas principalmente os franceses de origem árabe, franco-magrebinos, é desnecessário e terá como consequência repressão acentuada a estes indivíduos que são os que mais sofrem com o desemprego e com a discriminação da polícia, o “racismo policial” vigente nos subúrbios e periferias em que se concentra a população de origem árabe. Os indivíduos de origem árabe possuidores de dupla nacionalidade sofrerão inclusive a suspensão da nacionalidade francesa. Além da população franco – magrebina o arbítrio afetará a luta de classes; a resistência do conjunto dos trabalhadores franceses as políticas de ajuste estrutural e aos ataques aos seus direitos. O texto do estado de emergência aprovado pelo Parlamento autoriza aos prefeitos a declararem um toque de recolher, e a expulsão do território sob sua jurisdição de "quem quer que procure impedir, de alguma forma, a «ordem pública»”. Os prefeitos passam a gozar da prerrogativa de suspender e proibir atividades políticas e sindicais ainda que estas não tenham nenhuma ligação com o jihadismo. É possível perceber que o “estado de urgência” provavelmente constituirá uma estada exceção contra os trabalhadores, atando as mãos do movimento sindical e de outros movimentos sociais. O “estado de urgência” foi votado no parlamento com apoio do PCF e de outras organizações de esquerda. Foi aprovado tendo apenas três votos contrários que vieram dos Verdes. Vale ressaltar que a principal central sindical francesa a CGT vem manifestando oposição ao estado de urgência embora não tenha ainda tomado medidas práticas de mobilização. Isso se faz necessário tendo em consideração que importantes lutas sindicais se desenvolvem na França neste momento, como as campanhas contra as reformas do sistema de saúde e das universidades, além da luta contra a reforma do plano social da Air France. A política de união nacional convocada por Hollande significa o fortalecimento e aprofundamento da intervenção militar na Síria, a repressão racista contra a enorme comunidade argelina de cinco milhões de indivíduos e o aprofundamento da repressão às lutas sindicais. No contexto da crise econômica global que segue seu curso o capital aprofunda os ataques aos direitos sociais no plano interno e desenvolve as forças destrutivas que viabilizam a guerra no Oriente Médio, que tem como objetivo o acesso às riquezas naturais e a posterior exportação de capitais. São as duas faces de uma mesma moeda. No plano interno repressão que pode ser aprofundada com a aprovação de novas leis que podem chegar ao ponto de abalar os alicerces jurídicos da república francesa e no plano externo a guerra. Dada a importância da França, a evolução de sua situação política terá repercussão não só na Europa, mas a nível global. A resistência dos trabalhadores franceses ganha, portanto, importância ampliada, sendo capaz de afetar a conjuntura política global.
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