Os atentados em Paris no dia 13 de novembro concentraram a atenção mundial. Foram retratados nas principais manchetes dos principais meios de imprensa no dia seguinte e continuam ocupando lugar de destaque durante toda semana. Não é difícil intuir que o acontecimento determinará uma inflexão na chamada “guerra ao terror”, emblema da intervenção imperialista no oriente médio, cujas consequências serão sentidas direta ou indiretamente por milhões de pessoas em distintos países. Uma primeira questão que se impõe a qualquer observador é a escolha de Paris, como cenário para os atentados. Uma das principais cidades globais, onde qualquer acontecimento importante tem imediatamente repercussão global. Mas não apenas isso; Paris é a capital de um Estado imperialista que assumiu a linha de frente nas guerras de reordenação política no oriente médio, tendo participado diretamente da destruição do Iraque, liderado os bombardeios da OTAN que ocasionaram a devastação da Líbia e contribuído para o massacre de milhares de civis na guerra civil que segue em curso na Síria, através do financiamento e treinamento militar de grupos fundamentalistas islâmicos. Entre os diversos fatores que devem ser considerados para a compreensão deste acontecimento, um dos mais importantes diz respeito à dimensão geopolítica. Os interesses políticos e econômicos que determinam as ações das potências imperialistas ocidentais na região do Oriente Médio. Após o colapso da União Soviética, que funcionava como contrapeso político e militar, as principais potências ocidentais impulsionadas pela crise estrutural do capitalismo passaram a investir em um reordenamento político na região, visando o controle dos recursos petrolíferos de nações como o Iraque, a Líbia, a Síria etc. Além de ações militares diretas, estimulam a ‘tribalização’, o reforço de identidades étnicas e religiosas de cariz fundamentalista, objetivando a fragmentação desses países. Estas ações do imperialismo foram em grande parte facilitadas pela fase de alta degeneração e de colapso do nacionalismo árabe. A relativa falta de legitimidade política de regimes como o de Saddam Hussein no Iraque, de Kadaffi na Líbia e do clã familiar de Assad na Síria representam esse fenômeno. No momento de sua fundação em meados dos anos 50 e 60 o nacionalismo árabe se constituiu como um movimento dotado de elementos progressivos, distinguindo-se entre outros aspectos pelo seu caráter anti – imperialista e pela defesa do Estado laico. Contribuiu para o surgimento de regimes políticos que instituíram um elevado grau de soberania política em nações da região, que em diversas ocasiões se chocaram com os interesses imperiais. Na atualidade estes regimes transformaram-se em regimes autocráticos comandados por minorias privilegiadas e altamente repressivos. Ao se desvincular dos interesses das maiorias nacionais perderam em grande medida legitimidade política. Contudo, contraditoriamente ainda representavam uma barreira aos interesses imperialistas de nações como a França, que, por exemplo, se encontrava excluída das concessões petrolíferas na maioria destes países, como no caso da Síria. A chamada “revolução árabe”, que se iniciou na Tunísia e em seguida estendeu-se para o Egito, deixou patente, através das mobilizações populares massivas o enfraquecimento da legitimidade política destes regimes, porém, não o seu esgotamento pleno. O regime de Kadaffi estava a caminho de retomar o controle da Líbia, quando a OTAN iniciou sua intervenção com poderosos bombardeios aéreos, que minaram a resistência do regime, ao mesmo tempo em que financiavam a grupos Jihadistas que atacavam por terra com armamentos fornecidos por potências como os EUA e a França. Ao final da guerra da Líbia, como é de amplo conhecimento, a capital do país, Trípoli, foi derrubada por uma milícia ligada a Al Qaeda. A Líbia, na realidade não mais existe propriamente como uma nação. Encontra-se absolutamente fragmentada e sob o controle de diversas facções do extremismo islâmico, que ‘escravizam’ a população e traficam a riqueza petrolífera com as potências ocidentais. Na Síria, a França conjuntamente com outras potências, desenvolve ações similares, financiando e fornecendo armamento para grupos extremistas, fomentando a guerra civil que já custou 120.000 mortos. É a França inimiga do ISIS: O ISIS, ou Estado Islâmico ou Daesh é uma organização fundamentalista islâmica de orientação Salafista. Defende o retorno à interpretação do Corão e a lei da sharia tal como ocorria nos califados islâmicos do século VII. Consideram apóstatas todos que não seguem seus princípios. Grupos sunitas salafistas e inspirados na seita Wahabi – sunita são financiados pela Arábia Saudita, considerado “aliado moderado” das principais potências imperialistas do ocidente no Oriente Médio. A França além de manter relações muito amistosas e ser aliada da Arábia Saudita, aliou-se na Síria inicialmente ao ISIS, visto como instrumento para a derrubada do governo de Assad. Diversos grupos Wahabistas na Líbia e em todo oriente médio receberam suporte da França. Diante de tudo isso, faz-se necessário observar além das aparências e perceber como a França fomenta o crescimento de grupos e seitas obscurantistas com o propósito de desagregar governos e Estados e dessa forma se apropriar e pilhar riquezas naturais. Não há, portanto, choque de civilizações. A ampla maioria das populações de nações de maioria islâmica não apoia o terrorismo. Sofrem terrivelmente as consequências de suas ações e o arbítrio que impera nos territórios controlados por tais grupos. O terror islâmico é produto do terror e da barbarização das potências imperialistas do ocidente que em variadas situações estimula seu surgimento e o instrumentaliza em seus propósitos neocoloniais.
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