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No momento que este texto é escrito todas as atenções se voltam para o terrível desastre ambiental causado pelo vazamento de resíduos de mineração, na região de Mariana, Minas Gerais. A torrente de lama de mineração carregada de resíduos tóxicos ainda neste momento desce pelo Rio Doce, cruzando 233 munícipios até o desague no Oceano Atlântico no Estado do Espírito Santo. Além das vidas humanas perdidas, o montante gigantesco do prejuízo social e ambiental não poderá ser calculado tão cedo. Esta tragédia é de responsabilidade da Vale S.A., outrora orgulho nacional. Este artigo procura tecer breves considerações sobre o significado da privatização da empresa e as trágicas consequências sociais e ecológicas de um modelo econômico que se baseia na exportação de matérias - primas através da exploração depredatória dos recursos naturais. O acontecimento nos traz a comprovação irrefutável sobre o significado danoso e trágico da privatização da companhia. Prova que ficará visível como um estandarte por 100 anos, nas marcas inefáveis que deixará nas famílias, nas comunidades e no meio ambiente. Não deixa persistir nenhuma dúvida sobre o papel nefando, da estratégia econômica que redunda na reprimarização da economia, reinserindo o Brasil no mercado mundial como provedor de matérias – primas, como o minério e alimentos através do agronegócio. Atividades econômicas de alto custo ambiental, que dependem de altíssimo consumo de água, e que se expandem ao custo da exaustão dos recursos hídricos, da destruição de nossas florestas e da biodiversidade. Estratégia que somente serve aos interesses de agentes privados, multinacionais, e ao capital financeiro. A companhia Vale do Rio Doce, hoje Vale S.A. criada em 1942 durante o governo de Getúlio Vargas é hoje a maior mineradora do mundo. Para ter uma ideia sucinta sobre o significado da empresa, citamos breve trecho de entrevista concedida pela advogada Clair da Flora Martins concedida ao IHU On-Line no ano de 2013. Clair foi autora de uma das ações populares que questionam o leilão da Companhia Vale do Rio Doce: “Usando de uma metáfora, podemos dizer que sem a posse da Companhia Vale do Rio Doce podemos tirar a cor amarela de nossa bandeira. O seu valor é incalculável, não só pelas imensas riquezas minerais como ferro, bauxita, nióbio, alumínio, cobre, carvão, manganês, ouro, urânio e outros, bem como pela estrutura logística que opera em 14 estados do país, englobando 9 mil quilômetros de malha ferroviária, portos, usinas e terminais marítimos”. Esta grande empresa construída com aportes de recursos públicos e cuja importância estratégica para o desenvolvimento econômico e social é por si evidente, foi privatizada a preço irrisório em 1997 por Fernando Henrique Cardoso, privando o Brasil em grande medida desta riqueza incalculável e diminuindo o potencial da nação de controle e autodeterminação sobre seus recursos estratégicos. Existem centenas de ações tramitando na justiça que questionam ilicitudes que ocorreram durante a privatização da Vale. Contudo, em 2002 quando assumiu o governo o presidente Lula não cogitou a possibilidade de reversão da privatização da empresa, não obstante a existência de sólidos fundamentos jurídicos que oferecem elementos de sustentação a anulação do Leilão. A reestatização da empresa era incompatível com os propósitos de Lula que buscava formar um governo de coalizão reunindo trabalhadores e setores do empresariado em sua base social. Desde o primeiro mandato o presidente Lula adotou um modelo de estímulo à exportação de comoditties, favorecendo a expansão do agronegócio e a exportação de minérios, aproveitando-se da demanda crescente por esses bens no contexto que antecedeu a crise econômica de 2008. O “neodesenvolvimentismo” lulista também favoreceu a consolidação de uma poderosa indústria de alimentos para exportação, como se verifica na criação da Brasil Foods, através da fusão entre a Sadia e a Perdigão, viabilizada através de recursos do BNDES. Beneficiou grandes empreiteiras como Odebrech e Andrade Gutierrez com o financiamento público do complexo de usinas hidrelétricas de Jirau e Belo Monte, além de outras usinas hidrelétricas pelo Brasil afora e por toda a América do Sul. Todas essas atividades possuem um custo ambiental elevado e afetam inúmeras populações como já se torna patente nos casos gravíssimos das hidrelétricas citadas. Estas atividades econômicas significam em grande medida o movimento de reprimarização da pauta exportadora. Uma tendência, já duradoura de regressão qualitativa da inserção brasileira no mercado mundial. É importante ressaltar que a Vale é dirigida majoritariamente pelo consórcio VALEPAR que é liderado pela PREVI, fundo de pensão dos bancários, expoente do “capitalismo sindical”. Os fundos de pensão também possuem investimentos conjuntos com empreiteiras em atividades ligadas à construção das usinas hidrelétricas. A elite sindical que controla os fundos de pensão de grandes categorias é, portanto, sócia do empresariado nesses investimentos. Este modelo de “desenvolvimento econômico”, além de significar a inserção subalterna do Brasil na economia mundial, penaliza a população de diversas formas. Do ponto de vista ecológico seus efeitos nocivos se devem a apropriação de vastos territórios, a destruição das matas e a exaustão de recursos hídricos. Seus efeitos sociais podem ser observados através do forte impacto sobre a vida de comunidades e populações, determinando a migração forçada, o desenraizamento cultural etc. Produz inúmeros conflitos sociais e se faz acompanhar da criminalização dos movimentos sociais. Para a população apenas restam falsas promessas de progresso no futuro e forte repressão no presente. Além de gerar em seu ventre o colapso ambiental tal como veio à luz em Mariana
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