Os diversos países da região Latino americana desde sempre foram o cenário para inúmeros golpes de Estado. Sempre que partidos ou movimentos de esquerda ensaiaram a adoção de políticas que visassem minimamente à alteração do status quo, ainda que não se orientassem por propósitos revolucionários, as classes dominantes recorreram a golpes de estado, que via de regra inauguraram regimes ditatoriais conduzidos pelas forças armadas. Assim o nosso país viveu por mais de duas décadas um regime ditatorial instaurado pelo golpe de abril de 64. O Chile viveu a longa ditadura fascista de Pinochet, o Paraguai viveu por décadas a ditadura de Stroessner, para citar apenas alguns poucos exemplos.

            A partir da década de 80 a região vivenciou um processo de democratização, que em certa medida ainda vigora e que possibilitou para as classes dominantes uma transição segura. A hegemonia de industriais e latifundiários da região não foi ameaçada com esta transição, que possibilitou a construção de regimes democráticos, colocando a região em uma nova situação, adequada ao fim da guerra fria, pois não havia mais do ponto de vista da opinião pública o risco do socialismo, que se teria dissipado com o fim da União Soviética e a queda do socialismo realmente existente no Leste Europeu. Acresce a isto, que as ditaduras perderam legitimidade e foram enfraquecidas pelas lutas sociais.

            Alguns analistas, jornalistas, militantes e acadêmicos apressaram-se a defender a tese de que a transição democrática na região havia se consolidado e os riscos de retrocesso desse processo seriam mínimos.

            A primeira década do séc. XXI demonstrou que estas avaliações não apenas eram precipitadas, mas, sobretudo equivocadas. No ano de 2002, o presidente eleito da Venezuela sofreu um golpe de Estado, que deu posse a um civil. A mobilização popular espontânea derrotou o golpe e recolocou Chaves em seu posto. Desde então o presidente da Venezuela e seu sucessor Nicolas Maduro, sofreram diversas tentativas de “golpe suave”, através de campanhas midiáticas, sabotagens de diversos tipos, como frequentemente ocorre com o desabastecimento de alimentos produzido propositalmente pelos empresários venezuelanos.

            A estratégia do golpe suave é um aspecto novo e decisivo na realidade política que requer toda a atenção. Muitas vezes busca-se viabilizá-lo através da utilização ou manipulação de regras democráticas, com o propósito de interromper processos de mudança social, com um custo político menor do que o que deriva do tradicional golpe militar. Além disso, com a estratégia do golpe suave busca-se alcançar maior legitimidade política, dando uma feição democrática ou institucional ao que de fato é um golpe de Estado, que usurpa a vontade popular expressa através de processos eleitorais. Esse golpe “institucional” é a estratégia quem tem sido utilizada pelas classes empresarias da região com o apoio do Império americano, frente à fragilidade política destas classes e devido ao esgotamento dos partidos políticos tradicionais que davam sustentação a sua dominação.

                        Especialmente após o esgotamento político do neoliberalismo e dos partidos que o sustentavam, os quais em muitos casos eram partidos tradicionais que governaram seus respectivos países por décadas, e da emergência de governos de esquerda na região.

            Há dois casos em que o golpe suave foi bem sucedido na região, através de golpes parlamentares. Em 2009, Manuel Zelaya, presidente de Honduras, foi sequestrado em sua casa pelo exército no dia 28 de junho de 2009. No dia seguinte uma fraudulenta carta de renúncia foi lida no congresso de Honduras e o presidente do congresso empossado como presidente da república. Apesar de massivas mobilizações de estudantes, sindicalistas e camponeses, que duraram semanas, o golpe de estado se consolidou ao custo de violenta repressão, com a posse de um civil legitimado pelo parlamento.

 Em 2012, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, sofreu um golpe parlamentar. Os golpistas no parlamento deram feição democrática e institucional ao golpe se apoiando em uma norma constitucional para fazer a acusação ao presidente de “mau desempenho das funções”. Todo o processo de cassação do mandato teve duração de 30 horas entre o início e seu término, não havendo nenhuma possibilidade real de defesa. O julgamento foi sumário, em uma espécie de “impeachment relâmpago”.

            No ano de 2015, ocorreram tentativas de golpe suave na Venezuela, no Equador, na Bolívia e também, vale dizer, no Brasil, com a ameaça de um processo impeachment contra a presidenta eleita, a ser conduzido pelo congresso mais reacionário das últimas décadas, o qual tem assegurado uma pauta de votações de caráter reacionário, caracterizado pelos ataques a direitos sociais e trabalhistas.

            Os golpes suaves são instrumentalizados a partir de campanhas difamatórias, pelos monopólios de comunicação e redes sociais, acusações infundadas de radicalismo e de ameaça à ordem democrática contra os governos de esquerda, e com os métodos do golpe parlamentar, baseado na manipulação de normas jurídicas. Estas técnicas são utilizadas paralelamente e se reforçam mutuamente.

 É importante notar que o império americano mantém sua vigilância e está pronto a intervir militarmente, caso considere necessário, em qualquer país da região. Mantêm dezenas de bases militares no subcontinente da América do Sul, elas estão presentes em quase todos os países.  Além disso, reativaram a quarta frota naval.

Contudo a estratégia do golpe suave ganhou relevância e tem sido aplicada frequentemente. A sua utilização tornou-se rotineira. Nesse sentido, a compreensão dessa estratégia é fundamental para a resistência em defesa da democracia. Esta defesa da democracia mantém hoje como sempre significou, extrema importância para a garantia de condições minimamente favoráveis para a luta pela transformação socialista da AL.

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