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Jornal Atenção | Entrevista – Élzio, produtor rural da Comuna da Terra Elizabeth, em Limeira

Escrito em 24 novembro 2011 por admin

O Jornal Atenção entrevistou Élzio, de 69 anos, carpinteiro, produtor rural e assentado da Comuna da Terra Elizabeth Teixeira, em Limeira – SP.

Atenção – Seu Élzio, há quanto tempo você está no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)?

Élzio – Desde 2005.

Atenção – Por que você entrou no movimento?

Élzio – Eu entrei no movimento foi por opção, por uma ideologia. Foi pra fazer um trabalho. Um trabalho de base com as crianças. Fazer um viveiro pedagógico, fazer uma carpintaria, né? Fazer junto com os outros companheiros, pra ver se a gente consegue formar as pessoas, o que é muito importante. Pra poder ensinar as crianças e os demais. Pra ver se a gente consegue retorno, lá na frente, das pessoas. Não retorno financeiro, mas retorno das pessoas.

Atenção – Então você já entrou no movimento pensando na formação das crianças?

Élzio – Isso. Tamo conseguindo já dar os primeiros passos sobre o viveiro, a estufa e a carpintaria. A carpintaria tamo até com um barracãozinho feito já.

Atenção – Quantas pessoas estão envolvidas nesse projeto?

Élzio – Umas 10 pessoas envolvidas, o pessoal da Unicamp tá junto com a gente. Tá difícil envolver a criançada, mas vamo conseguir, eu gostaria muito de fazer essa formação, tamo tentando há um tempo e agora vamo conseguir. Comprei as lona, fui juntar madeira pra levantar as estruturas…

Atenção – E como é que você tá enxergando o Brasil, a política, a luta pela terra…?

Élzio – Muito difícil, né? As pessoa fica tão distante, né? Porque no tempo do Fernando Henrique tinha uma coisa pra nóis conversar, né? Hoje tá mais difícil, o povo tá desinteressado.

Atenção – E como você pensa a formação?

Élzio – Tem a história de um russo, um ministro russo, que tinha um filho de cinco ano de idade mais ou menos. Daí o filho perguntava pro pai: “Pai, vamo jogá bola na praça?”. E o pai respondia “Não!”. “Papai, vamo andar de bicicleta?”, “Não!”. Daí um dia o pai se aborreceu com o filho, pegou um mapa do mundo, rasgou o mapa inteirinho, e disse pro filho: “O dia que cê conseguir montar esse mapa eu vou sair com você, vou na praça com você” . Uma hora depois volta o menino com o mapa pronto, montadinho. O pai dele disse assim: “Meu filho, foi seus irmão que te ajudou?” “Não, pai” “Foi a mamãe que te ajudou?”, “Não, pai. É que do outro lado do mapa tinha a figura de um homem e eu reconstitui o homem. Eu sei onde tá a cabeça dele, as perna os braço e reconstitui o homem. Quando virei tava o mapa pronto”. Daí tem aquela mensagem: “Só vamo conseguir melhorar esse mundo quando nóis conseguir reformar o homem, mudar o homem”.

Atenção – E como anda a vida, o dia a dia?

Élzio – É um desafio pra gente. A gente tem um pique que é de astutar. Eu me assustou com meu pique. Eu levanto todo dia as 5 e meia da manhã. Agora as 4 e meia, né? Nesse horário de verão, famigerado horário de verão queu não gosto não… Aí eu levanto, vou cuidar da minha vida, trabalho duas horas mais ou menos até três horas por dia na horta social…

Atenção – Essa horta social é em uma área coletiva?

Élzio – Isso uma área coletiva em que nóis tamo fazendo uma barragem pra fazer uma horta coletiva… depois eu trabalho no meu lote…

Atenção – E o que você acha da juventude do movimento?

Élzio – A juventude precisa de formação. Eu luto muito pela formação das pessoas. As pessoas vim pro movimento e ter uma formação. Quando eu cheguei no movimento eu já tinha uma formação política, uma formação de vida. A luta nossa é pra formar a mulecada.

Atenção – Quer falar mais alguma coisa que você acha importante?

Élzio – De importante… gostaria que as pessoas se engajassem mesmo na luta e deixasse um pouco de hipocrisia. Fosse engajado mesmo na luta com os companheiros, afinal de contas o MST foi formado pra fazer a formação das pessoas e pra ajudar as pessoas mais necessitadas. O que eu acho da vida é isso: a gente partir pra formar as pessoas e ajudar os mais necessitados.

Foto: Natasha Mota

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