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Zé Castanha e Maria do Espírito Santo *

Escrito em 04 agosto 2011 por admin

Zé Castanha e Maria do Espírito Santo *

Foi assim

eles estavam no caminho de casa

na moto velha de guerra

talvez conversando sobre banalidades

dessas que a gente fala todo dia

o que fazer pra comer

o preço do leite

o filho doente

o futuro.

Então quase ninguém ouviu

vindos do escuro, escondidos,

os ruídos repetidos sem cessar

desde o descobrimento

da Nossa América.

A vida deve sempre

dar lugar ao progresso.

Não é o bagre bigodudo

presente só no afluente do afluente do grande rio,

não é só a castanheira, o açaizeiro,

é o homem, a mulher,

o casal que hoje não volta pra casa.

Vai ver prendem uns pistoleiros

depois de dois anos regime semi-aberto,

de mil dos poderosos prendem um,

aguarda os mil recursos em liberdade.

Antes fosse a lei da selva!

Agora quem vai tirar

da cabeça das pessoas

esse progresso-trator infinito,

vai arrastando tudo

mata-mata-mata

preto, branco, índio, mestiço

mata floresta

mata cerrado

mata água

mata terra

mata ar?

Zé Castanha não colhe mais,

o boi do desenvolvimento

quer pastar no seu quintal.

A Maria foi mesmo pro Espírito Santo,

deixou o caminho aberto

pra moto-serra zunir

e fazer do Brasil potência.

O futuro deles não veio,

o nosso está aí por fazer.

* Ambientalistas assassinados recentemente no Pará por denunciarem a ação ilegal de madeireiras

.

Poema de Geraldo Witeze (http://www.sobreaspalavras.blogspot.com/)

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