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PEDRO TIERRA (1948)

Escrito em 18 abril 2011 por admin

PEDRO TIERRA (1948)

Muitos que lutaram contra as ditaduras na América Latina eram poetas. Pedro Tierra é um desses lutadores-poetas que foi preso por lutar contra a ditadura brasileira em 1972 na ALN (Ação Libertadora Nacional). Foi apenas libertado em 1977, após passar por diversas prisões e por longos períodos de tortura. Foi através da poesia (que saíam escondias em canetas bics) que Tierra conseguiu manter sua humanidade nos porões da ditadura: “Era, então, a maneira de poder me

olhar no espelho sem enlouquecer.”

“Porque sou o poeta

dos mortos assassinados,

dos eletrocutados, dos ‘suicidas’,

dos ‘enforcados’ e ‘atropelados’,

dos que ‘tentaram fugir’,

dos enlouquecidos.

[...]

meu ofício sobre a terra

é ressuscitar os mortos

e apontar a cara dos assassinos“

(Trechos de Poema-prólogo)

O GRITO (1974)

Olho meus companheiros. Estão calados.

Os nervos tensos como cordas.

O grito lá fora estala no peito

feito metal rompido.

Conhecemos de cor este caminho.

Contudo, a cada grito esperamos

que seja o último.

Mas ele se repete e se prolonga

num fio de voz agudo

como um punhal.

Ele se dissolve num soluço

como o fugitivo na sombra do muro.

E recomeça.

Desperta cicatrizes extinas,

sopra nelas centelhas* de novas dores.

Olho meus companheiros. Estão calados.

Mas ninguém se rendeu ao sono.

Todos sabe (e isso nos deixa vivos):

a noite que abriga os carrascos,

abriga também os rebelados.

Em algum lugar, não sei onde,

numa casa de subúrbios**,

no porão de alguma fábrica

se traçam planos de revolta.

* centelhas: fagulhas, faíscas / ** subúrbios: periferia

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