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Gravata Colorida

Escrito em 24 novembro 2011 por admin

Solano Trindade

quando eu tiver bastante pão

para meus filhos

para minha amada

pros meus amigos

e pros meus vizinhos

quando eu tiver

livros para ler

então eu comprarei

uma gravata colorida

larga

bonita

e darei um laço perfeito

e ficarei mostrando

a minha gravata colorida

a todos os que gostam

de gente engravatada

Poema de Solano Trindade (1908-1974) retirado do Boletim do Acampamento Dandara do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) – Jardim Minda, em Hortolândia.

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Cultura sendo feito na luta. Poesia escrita durante a 8ª Caravana dos trabalhadores da Flaskô à Brasília.

Escrito em 24 novembro 2011 por admin

Foi numa manhã de sol

No dia cinco de Julho

Que Brasília os recebeu

Com o maior orgulho

Eles são nossos irmãos

E vieram de São Paulo

Pra lutar pelos direitos

Da fábrica que ocuparam

Com garra e coragem

Há oito anos resistem

Unidos por moradia

E pela democracia

Trabalhadores do mundo inteiro

Agora, preste atenção

Se o patrão quer mandar embora

Mande embora o patrão

Déborah Gomes – Militante que escreve o Zine Papo Reto.

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Zé Castanha e Maria do Espírito Santo *

Escrito em 04 agosto 2011 por admin

Zé Castanha e Maria do Espírito Santo *

Foi assim

eles estavam no caminho de casa

na moto velha de guerra

talvez conversando sobre banalidades

dessas que a gente fala todo dia

o que fazer pra comer

o preço do leite

o filho doente

o futuro.

Então quase ninguém ouviu

vindos do escuro, escondidos,

os ruídos repetidos sem cessar

desde o descobrimento

da Nossa América.

A vida deve sempre

dar lugar ao progresso.

Não é o bagre bigodudo

presente só no afluente do afluente do grande rio,

não é só a castanheira, o açaizeiro,

é o homem, a mulher,

o casal que hoje não volta pra casa.

Vai ver prendem uns pistoleiros

depois de dois anos regime semi-aberto,

de mil dos poderosos prendem um,

aguarda os mil recursos em liberdade.

Antes fosse a lei da selva!

Agora quem vai tirar

da cabeça das pessoas

esse progresso-trator infinito,

vai arrastando tudo

mata-mata-mata

preto, branco, índio, mestiço

mata floresta

mata cerrado

mata água

mata terra

mata ar?

Zé Castanha não colhe mais,

o boi do desenvolvimento

quer pastar no seu quintal.

A Maria foi mesmo pro Espírito Santo,

deixou o caminho aberto

pra moto-serra zunir

e fazer do Brasil potência.

O futuro deles não veio,

o nosso está aí por fazer.

* Ambientalistas assassinados recentemente no Pará por denunciarem a ação ilegal de madeireiras

.

Poema de Geraldo Witeze (http://www.sobreaspalavras.blogspot.com/)

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guillen1

Poemas de Nicolás Guillén

Escrito em 04 agosto 2011 por admin

Nicolás Guillén (Cuba, 1902-1989)

Guillén é conhecido como maior poeta cubano ao lado de José Martí. Foi um dos maiores defensores da revolução cubana assim que ela aconteceu em 1959. Suas poesias falam da revolução cubana, da luta dos negros e do amor.

A FOME

Esta é a fome. Um animal

todo canino e olho.

Ninguém o engana ou distrai.

Não se farta em uma mesa.

Não se contenta

com um almoço ou uma ceia.

Anuncia sempre sangue.

Ruge como leão, aperta como jibóia,

pensa como pessoa.

O exemplar que aqui se oferece

foi caçado na Índia (subúrbios de Bombaim),

mas existe em estado mais ou menos selvagem

em outras muitas partes.

Não se aproxime.

BURGUESES

Não me dão pena os burgueses vencidos.

E quando penso que vão me dar pena,

aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.

Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.

Penso em meus longos dias sem chapéus nem nuvens.

Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.

Penso em meus longos dias com minha pele proibida.

Penso em meus longos dias.

Não passe, por favor. Isto é um clube.

A relação está cheia.

Não há vaga no hotel.

O senhor saiu.

Precisa-se de meninas.

Fraude nas eleições.

Grande baile para cegos.

Saiu o Prêmio Maior em Santa Clara.

Bingo para órfãos.

O cavalheiro está em Paris.

A senhora marquesa não recebe.

Enfim, e

que tudo recordo e como tudo recordo,

que porra me pede você pra fazer?

E, além do mais, pergunte-lhes.

Estou seguro que também

recordarão.

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PEDRO TIERRA (1948)

PEDRO TIERRA (1948)

Escrito em 18 abril 2011 por admin

PEDRO TIERRA (1948)

Muitos que lutaram contra as ditaduras na América Latina eram poetas. Pedro Tierra é um desses lutadores-poetas que foi preso por lutar contra a ditadura brasileira em 1972 na ALN (Ação Libertadora Nacional). Foi apenas libertado em 1977, após passar por diversas prisões e por longos períodos de tortura. Foi através da poesia (que saíam escondias em canetas bics) que Tierra conseguiu manter sua humanidade nos porões da ditadura: “Era, então, a maneira de poder me

olhar no espelho sem enlouquecer.”

“Porque sou o poeta

dos mortos assassinados,

dos eletrocutados, dos ‘suicidas’,

dos ‘enforcados’ e ‘atropelados’,

dos que ‘tentaram fugir’,

dos enlouquecidos.

[...]

meu ofício sobre a terra

é ressuscitar os mortos

e apontar a cara dos assassinos“

(Trechos de Poema-prólogo)

O GRITO (1974)

Olho meus companheiros. Estão calados.

Os nervos tensos como cordas.

O grito lá fora estala no peito

feito metal rompido.

Conhecemos de cor este caminho.

Contudo, a cada grito esperamos

que seja o último.

Mas ele se repete e se prolonga

num fio de voz agudo

como um punhal.

Ele se dissolve num soluço

como o fugitivo na sombra do muro.

E recomeça.

Desperta cicatrizes extinas,

sopra nelas centelhas* de novas dores.

Olho meus companheiros. Estão calados.

Mas ninguém se rendeu ao sono.

Todos sabe (e isso nos deixa vivos):

a noite que abriga os carrascos,

abriga também os rebelados.

Em algum lugar, não sei onde,

numa casa de subúrbios**,

no porão de alguma fábrica

se traçam planos de revolta.

* centelhas: fagulhas, faíscas / ** subúrbios: periferia

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Poesias – Roberto Jorge Santoro

Poesias – Roberto Jorge Santoro

Escrito em 30 março 2011 por admin

Jorge Roberto Santoro (1939-1977, Argentina)

Roberto Jorge Santoro se apresentava assim: “sangue tipo A, fator RH negativo, 34 anos, 12 horas diárias a busca castradora, desumana, do soldo que não se alcança. Dois empregos, escritor surrealista, ou melhor, realista do sul. Vivo em uma engrenagem. Filho de operários, tenho consciência de classe. Rechaço* ser travesti do sistema, essa podre máquina social que faz que um homem deixe de ser um homem, obrigando-o a ter um despertador no cú, um bilhete de loteria na cabeça e um cadeado na boca.”. Por suas posições políticas, foi assassinado durante a ditadura na Argentina e continua entre os “desaparecidos” até hoje.

** rechaçar: negar com força

CHUVA NA VILA

lá fora

a água cai

de cima pra baixo

cá dentro

a água sobe

de baixo pra cima.

LIMPEZA

durante 15 segundos

e em jejum

repita-se diariamente

as seguintes palavras

fi-lhos-da-pu-ta-fi-lhos-da-pu-ta

CALCOMANIA*

Sorria

deus te ama

Dissimula**

a polícia vigia

* Calcomania: Técnica que consiste em transferir imagens pintadas de um suporte a outro por pressão ou decalque.

** Dissimular: fingir para não ser descoberto ou reconhecido.

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Poema: Peão

Escrito em 01 fevereiro 2011 por admin

Peão

Eu sou peão

Peão de fábrica

De mão calejada

E de sapatão

Eu sou peão

Peão da máquina

Que suja de graxa

A produção

Eu sou peão

Peão que rala

Por horas diárias

Batendo cartão

Mas antes de nada

Eu sou peão

Peão da fábrica

Que a peãozada

Fez ocupação

Eu sou peão

Peão que fala

E que acha graça

Do fim do patrão

Eu sou peão

Peão que marca

O fim da desgraça

Da exploração

Eu sou peão

E antes de nada

Sou filho das massas

Da revolução

Autor: ‘um trabalhador da Flaskô’

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